21 de dezembro de 2010

Rastros de alegria...

Enquanto caminhamos observamos as luzes coloridas espalhadas por toda nossa volta. As pessoas que passam por entre nós respeitam o comum de nosso cotidiano... Estão algumas admiradas com todo o brilho ao seu redor, algumas preocupadas com o dia em que está por vir... Um pouco de tudo isso me afeta.
Desde que nos encontramos estamos em silêncio. Em silêncio observando as luzes, o brilho, as variadas pessoas... Tampouco a peça de teatro que acabamos de assistir foi capaz de nos trazer o assunto que talvez esperávamos para disfarçar nossa solidão. Eu sabia que ela partiria em breve.
De nossas bocas saíram apenas umas pequenas lembranças, trazendo consigo o sentimento de saudade... Por que é sempre assim, tão difícil?
A poesia se faz de todas as coisas... Na volta para casa, ao meio de tanta música alegre, muitas pessoas esbanjando roupas caras, muitos sorrisos despertados pelo encanto, vejo um menino, um menino tão novo!, fumando um cigarro... "Pra quê fazer isso?", me pergunto... Depois penso, observando seu olhar perdido, se realmente ele gostaria de estar assim... Imaginei seu coração partido, vi sua expressão sem esperanças... Quis dar-lhe um pouco de felicidade.
Passei rapidamente por ele... Já está tarde e é perigoso. Preciso chegar em casa. Estou atordoada, e quero logo dormir. Confesso que, na minha caminhada, reparo no infinito particular de muitos que também se permitem caminhar.
Num canto escuro vejo um homem e uma mulher. Ela está deitada em seu colo; ele faz carinho em seus cabelos. São pobres, são mendigos, são miseráveis. Ele olha diretamente para mim. Eu sinto o seu amor por ela... Qual a história que eles carregam? Não queria que a vida fosse assim...
Entro no metrô. Acabam-se as luzes coloridas, o brilho, os olhares encantados. A solidão permanece em meu ser. Os pensamentos e lembranças da noite também. Éramos duas entre todas as muitas pessoas ao nosso redor. O silêncio era um só, entre o menino do cigarro e os mendigos no canto escuro. Há poesia no meu infinito particular...
Vidas e vidas esperam por esperança... Vidas e vidas não se importam com tal situação. Sentimento hipócrita e covarde... Minha vida então deseja deixar rastros de alegria para o menino do coração partido e para os mendigos perto do metrô. E assim se faz meu natal.

24 de novembro de 2010

Como num romance. (Parte 2)

Neste dia, depois de algum tempo, a chamou de anjo azul.
Aquele novo entregar causava nela um certo receio, um medo que queria poder extinguir de todo, podendo assim ter para si o seu homem.
O seu homem... Isto não passava de um desejo, o mais profundo, o mais sincero; aquele que a fazia pensar em se entregar de fato àquela felicidade clandestina.
Tinha a impressão de que o fim iria doer, fazer mal como nunca havia feito nela antes. Às vezes, nos dias que se passaram após o primeiro, em que um era a alegria sem razão do outro, ele a mandava um rosa, ou copiava um poema para enfim conquistar aquela que considerava tão linda mulher.
Nele a paixão também já existia. Ela tinha um carinho enorme por todos os seus gestos.

Seu corpo fora só dele aquela noite...
Fez-se então um receio fora de si, fora dos seus, fora de tudo. Não podia mais fingir que não o sentia. Não podia mais mentir nem para si mesma: chegara a hora de partir. Partir sem seu amor. Tinha que ir com os seus para a próxima turnê. Aquilo era sua vida, e assim a deveria seguir. Seguiria com essa lembrança a lhe machucar; mas seguiria.

Chegou enfim o dia em que ele disse a ela o que já não precisava ser dito: a amava como esposa, não mais como estar.
Ali tudo acabou.
Nunca mais um drink, nunca mais um flash... Nunca mais os olhos de comer.
O homem dos seus sonhos lhe apareceu no dancing, e assim se fora... Amassou as flores que havia levado, os poemas que dessa vez havia escrito; foi-se com um tristeza sem tamanho, cruel, cortante, sem fim. Como num romance.
Fez-se então uma rosa... uma rosa nunca mais feliz.

(Texto inspirado na música "A história de Lily Braun", interpretada por Maria Gadú)

7 de novembro de 2010

Como num romance.

O último retoque...
O batom vermelho finalizava sua maquilagem carregada, realçando seus olhos azuis e sua boca carnuda.
Estava, de certa forma, achando-se deslumbrante. Seu rosto aquela noite parecia mais vivo, e seu desejo mais forte. Não sabia quando iria embora novamente, e nem sabia para onde ir. Uma prática que fazia parte de seu cotidiano. Gostara daquele lugar... As poucas noites em que se apresentou fora contente. Muitas exclamações oferecendo-lhe elogios, muitos aplausos, muitos sorrisos, muito calor. A música antiga enquanto dançava; talvez algum carinho alguns minutos depois. As plumas que enfeitavam seu corpo, seu olhar malicioso, seus passos quase já não pensados. A madeira escura do palco, o nervosismo antes de entrar, a saudade ao sair.
Às vezes algum bilhete apaixonado. Raras vezes uma flor.
Muitas vezes um drink; taças comemoram uma conversa informal. Nas paredes, alguns quadros em preto e branco. Gostava em especial de um. Ficava logo acima da mesa mais próxima das luminárias rosadas. Era um espaço aconchegante e bonito.
- Agora é com você, querida.
Fechou a porta. Ela olhou para o espelho uma última vez. "Agora é com você, querida!". Sorriu. Ajeitou seu decote e foi para a coxia. Mal chegou, ouviu sua música tocar. As pequenas cortinas vermelhas se abriram. Ela entrou.
Murmúrios e olhares encantados; murmúrios de desejo... Era a preferida no dancing, era a mais linda mulher. Enquanto fazia sua performance, atrevia-se a olhar mais profundamente para alguns.Um olhar chamou-lhe a atenção.
Não; aquele era mais um. Era o mais bonito, mas era somente mais um.
Uma pluma caiu aos seus pés. Logo depois, soltou seus cabelos. Aquele novamente... Num relance, seus olhos foram de encontro com os dela de forma penetrante. Tentara evitar, mas não conseguira. Ele a comia com aqueles olhos de comer.
A música acabara. Agradeceu seu público, recolheu sua pluma, saiu atordoada. Desceu, seguiu em direção ao bar. Sentou, pediu uma bebida para tentar se distrair e sentiu olhares de todos os cantos a fitá-la. Já não se incomodava mais.
Estava tranquila a espera de um novo amor que durasse por toda aquela noite. De repente um flash. Virou-se e o viu. Aqueles olhos...
- Poderia ser mais gentil da próxima vez, pedindo para tirar uma foto?
- Ah, me desculpe... Não poderia perder a oportunidade de tirá-la, então resolvi...
Sorriu desconcertado. Aquele gesto lhe surpreendeu.
- Posso sentar com você?
Geralmente os homens dos lugares em que se apresentava não eram tão gentis. Assentiu. Beberam juntos, conversaram. Riram, beberam mais, conversaram mais. Ela foi deixando-se levar por sua simpatia. Mais uma foto, mais um drink, mais um flash. De close em close foi perdendo a pose... até sorrir feliz.

                                                                                                                        [continua]

18 de outubro de 2010

Querido John;

       Escrevo novamente sem saber se esta carta vai chegar até você... mas não me importo. Os dias continuam vazios como são desde o dia em que você se foi. A guerra é insana e cruel; agora o sinto com meu próprio coração. Tento continuar forte alimentando a idéia de que você ainda está vivo. A cada instante tenho a esperança de que verei o seu sorriso cansado ao longe, voltando para mim. Ah John, como eu preciso do seu carinho...
      Meu pai faleceu semana passada, e agora estou completamente só. Quase já não tenho o que comer, e isso me preocupa muito. Os filhos da Rose também não voltaram, e estamos compartilhando da mesma dor. Não sei se vou suportar por muito tempo. Permaneço aqui a sua espera, como prometi; disse que ficaria aqui a sua espera até que voltasse, e assim o faço. Mas já se passaram tantos meses... e a angústia de não ter nenhuma notícia me consome quase por inteira.
      Muitos daqui já fugiram, mesmo que não consolados ainda pela idéia de não saber do paradeiro das vidas de seus familiares. Às vezes me culpo por ter permitido que você partisse. Deveria ter dito algo, feito algo. A guerra destrói a felicidade das pessoas; por que conosco seria diferente?
      Ontem sonhei que você andava mancando por uma estrada cheia de pássaros. Desde então desejo com toda minha alma que essa estrada chegue até aqui. Necessito sentir alegria novamente, amor. A tristeza que está em mim fincada me adoece e me mata um pouco a cada dia.
      Estou viva porque o amor que sinto está guardado em algum lugar de meu ser. Já não sei mais discernir meus sentimentos ao meio de tanto desespero... Somente sei que o aguardo como uma mãe espera por seu filho.
     Agora entendo que não foram necessários mais do que os poucos momentos para que a vida fizesse de nós um só. Nos dias frios eu não tenho o cuidado do teu calor... nos instantes em que toco piano é a sua foto que fico a contemplar. Uma farda e, em sua camisa, a bandeira do nosso país... Maldita farda, maldito nacionalismo, maldita guerra. Desde quando a vi senti medo... Medo e receio do que pudesse acontecer.
       Hoje não sei se é a única coisa que terei de ti... essa foto e a lembrança dos poucos momentos que fizeram de nossa vida essa. Que me fazem te esperar a cada instante. Que fazem da angústia de cada instante esperança; esperança de ter você de volta em meus braços, de que você me tenha como nunca o teve.
      Por favor, desista da guerra. Se ainda estiver lutando, pare. Pare, por favor. Se ainda estiver vivo, desista. Não aguento mais a ausência da alegria em meu coração.
     Volte John, por favor. Eu te amo. Vou continuar escrevendo. Algum dia uma carta pode chegar até você... eu tenho esperanças.
     Volte, John...


                                                                                                                        Julie.

12 de outubro de 2010

Ouve o meu canto; preciso do colo teu...

O desejo é de fugir um pouco de mim, sair da angústia do momento que se faz. Pensar num futuro só é mais difícil do que imaginava. Ter a vida assim, num caminho só seu... Fazer o que talvez nunca fora o seu sonho-de-criança. Será essa a decisão certa a seguir? E aquilo que prometera ao teu amor? E o teu coração, aguenta? Suporta a dor? Suporta não ter os carinhos que sempre fora acostumado a ter?
Esse ser que sempre se deu a quem teve amor... esse que, no fundo, nunca soube o que é viver só. Sempre sentiu-se em liberdade, sem saber o significado de tal. Agora sente medo de voar, de seguir seu próprio caminhar, sente medo de crescer. A vida espera ansiosa por seus passos, e ela ao menos sabe o que esperar de si. Lembra de seus instintos, de seus desejos antigos, dos medos de agora. Não sabe ao certo onde se apegar. Tudo é incerteza. Queria abraços sinceros e o conforto das pessoas que ama. Queria não pensar no que está por vir. Mas vem, e vem como um monstro que é corpulento, num andar manco e esquisito. Ele olha e anda sem parar. É um monstro feio de roupas mal escolhidas.
Mas, apesar de tudo, vejo um mistério que não me assusta. O que me conforta é que sei que o que virá será bonito.
Vou desenhar minha vida em papéis sem cor; serão esboços de uma menina que se entrega sem saber da alegria que está por vir.

6 de outubro de 2010

24 de setembro de 2010

Essas lembranças ao menos são bonitas.

Fiquei revirando as folhas deste caderno, o rabiscando, olhando para esta caneta velha com que escrevo. Certifiquei-me de tudo; da poesia que não queria que soasse falsa, e da falta das palavras para demonstrar expressão.
Escrever para você agora perece-me bem mais difícil. No fim, espero que nunca o leia. Se o ler... bem, se o ler, ficará sabendo... sabendo das coisas que estou prestes a escrever. Falo assim porque ainda não sei o que serão essas coisas... não passam de lembranças. Não no tom de rancor; digo que são lembranças porque realmente as são, e guardo-as porque são lembranças. E boas, boas lembranças.
Lembro-me daquele dia em que você disse, com medo, talvez: "tudo que é muito intenso dura pouco". Aquilo me causara um nó na garganta sem igual. Estas palavras até hoje me causam certo receio; eu, que mergulho em meus devaneios sem perceber, e... nunca sei onde vou chegar.
Sabe, a verdade é que não lembro de todos os momentos. Na verdade, muito poucos. O que me instiga é ainda conseguir sentir o gosto do amor daqueles tempos; lembrar de como ficava feliz ao te ver sorrir.
Hoje me peguei imaginando uma mesma cena daquele filme... você, depois de alguns anos sem mim, vai até onde eu estiver, não importa onde. Talvez em Paris. Você vai até Paris e ao encontrar-me diz coisas que nunca acreditou que diria.
Ia dizer que ainda me amava... que continua a me amar como antes. Como sempre. E é estranho admitir, mas ainda o considero como o amor da minha vida. Não, não digo neste sentido; muitos outros amores irão passar em minha vida- ela sempre nos dá essa oportunidade. Mas agora, ah... por que você o considerado?
"amor da minha vida"... será que faz algum sentido se não é com a minha vida que você está?
Mas não importa. Devo confessar que acharia isso uma coisa bonita. Você ir de encontro a mim dizer-me do teu amor.
Nos meus sonhos, esse encontro termina por aqui. Não saberia dizer-lhe minha reação.
Acho que se nos conhecêssemos agora... mais velhos, mais maduros... nosso momento teria dado certo. Sim, confesso que o penso. Mas fora de uma pureza tão singela as nossas mãos juntas e os nossos planos, aqueles todos que fizemos os dois, que não sei dar explicação... nunca soube.
Quem sabe o destino, no qual não acredito. Quem sabe o acaso; o mesmo. Na verdade eu sei que foi uma escolha tua.
Agora nossas vidas são distintas... tão longe. Tão separadas. Tão cheias de lembranças e sonhos... essas lembranças ao menos são bonitas. Não sei se devo dizer que sinto saudades, pois não sei se sinto.
Mas que dirá as reações de meu corpo ao ver-te novamente? Que seja feita a vontade do amor em si. Escrevo essa carta sem querer que você leia, lembra? De que adianta falar; imagino que já deve ter lido algum de meus textos. Será que percebeu alguns gestos teus nos outros deste...?
Enfim, o que me prometera se fincou. Criou raízes, deu flor, deu fruto, secou, caiu ao chão, e agora vou embalado pela vontade de não-saber-pra-onde-vai.
O canto: "Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim... que nada neste mundo levará você de mim. Eu sei e você sabe que a distância não existe, que todo grande amor só é bem grande se for triste. Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer, que todos os caminhos me encaminham pra você".
Quem sabe um dia a poesia ainda fale por nós... quem sabe um dia os tijolinhos a construir...

12 de setembro de 2010

Guarda aqui tuas lembranças, meu amor.

Ela sentara naquela poltrona aconchegante de sua varanda. Ao seu lado, em cima da mesa, sua xícara inseparável de café matinal, e a sua frente a vista alegre das árvores floridas no outono. Olhando todos aqueles tons amarelos vivos também caídos ao chão lembrou-se de sentir mais a si mesma. Respirou fundo, fechou os olhos por um instante e sorriu. Sabia que a paisagem que podia contemplar todos os dias era um privilégio que poucos tinham; sabia que a alegria que sentia ao vê-la logo ao acordar pelas manhãs era somente dela.
Aquele caderno grosso com seus contos de inspiração permanecia junto a mesa como sempre. Um dia iria terminar uma de suas várias histórias. Talvez algumas poucas valessem a pena... mas ela tinha um carinho especial por todas. Em cada uma delas tinha grifado um gesto, uma marca, algo de sua vida. Uma lembrança, um pensamento vago... uma saudade passageira. Sempre escrevera com o coração.
A brisa passou e se contentou em carregar umas poucas folhas secas e a transmitir-lhe um arrepio de frio. Entrou, terminou de tomar o café que tinha em sua xícara colorida e ligou o som. Música sempre a fazia bem. Jogou-se na cama e sentiu o conforto de seus travesseiros e do edredom macio. Abraçando-os, começou a pensar no dia que estava por vir. Sem muitos planos importantes, confessou. Resolveu dar uma olhada em sua mini biblioteca particular. Quem sabe revirar aquele baú antigo, encostado no outro canto do quarto... o adorava, estava ali como objeto de decoração. Era de sua mãe... ganhara de presente quando era criança.
"Guarda aqui tuas lembranças, meu amor. Um dia vai se apaixonar ao relembrá-las..."
Nunca esqueceu das palavras carinhosas de sua mãe. Realmente fazia muito tempo que ele estava ali esquecido.
Olhou para o porta retrato em preto e branco em cima do seu piano. Ela sorria, feliz. Um sorriso sem dores, mágoas. Era encantadora. Persistente. Sentia tantas saudades...
Pensou no quanto a vida era passageira para alguns; porém, marcante.
Desviou seu olhar para seus querido livros... Aquele mais antigo chamava mas atenção por sua capa rústica. Lembrou de quando ela lhe contava histórias antes de dormir. Ficava lendo histórias que acreditava que só ela conhecia. Aqueles também foram momentos inesquecíveis, onde se sentia protegida por seu abraço antes dos sonhos.
Finalmente, (e não sem antes observá-lo com curiosidade) abriu seu baú. Depois de tantos sentimentos bonitos, o que mais poderia vir a surpreendê-la?
Partituras amareladas... de sua mãe herdara o gostar pelas teclas daquele piano... ela ensinara suas primeiras notas, assim como a acompanhou em seus primeiros passos... Entre umas dez, lembrou bem daquela "Canção francesa". Em um dia triste, ela a ensinara a cantar enquanto tocava. A canção, assim como ela, era tão alegre!
"Plantei no jardim um sonho bom..."
Sorriu com carinho ao recordar-se desse dia... separou as partituras e deixou-as arrumadas ao seu lado. Logo em seguida pegou uma caixinha que ela própria pintara quando também era pequena. Estava quebrada. Toda florida, pintada em azul, vermelho e branco. Dentro havia alguns papeizinhos, aparentemente sem nenhum significado maior. mas achou muito singelos seus traços da infância... Tirou-a do baú também com carinho.
Havia também algumas roupas antigas, a fantasia de princesa da sua festa de nove anos, um diário escrito na pré-adolescência (que ao ler arrancou-lhe boas gargalhadas, e as melhores sensações em relação aos amigos).... até que pegou em suas mãos aquele ursinho pequeno de pelúcia. Seu companheiro de todos os dias daquele tempo de inocência e felicidade... ela o amara tanto! Cuidara dele como se fosse um bebê. Como pôde esquecê-lo ali, jogado entre tantas outras coisas...?
Percebeu então que tempo pregava peças... a fazia esquecer de certos detalhes. Mas percebeu que o amor não fugia dele, tampouco se adequava a tal. Ela o amara todos os dias, dentro de cada instante pertencente a seu amor. Assim o fez com a mulher que dera aquele ursinho, o fez com todas as falhas que podia, mas o fez como se não houvesse amanhã.
"Guarda aqui tuas lembranças, meu amor. Um dia irá se apaixonar ao relembrá-las..."
Aquelas lembranças nada mais eram do que tracejados de sua vida. Apaixonou-se por todas elas, pelo valor que cada uma delas transmitiam... sorriu ao se dar conta de como a vida era bonita.
-Esse sorriso você também herdou dela. Mas esse coração maravilhoso... ah, ele é só seu! E é por isso que te amo tanto...
-Eu também te amo, meu amor! Vem cá, me dá um beijo. Já tomou seu café?

2 de setembro de 2010

A vida esperava ansiosa por seus caminhos.

Ah!, já a algum tempo a menina de flor no cabelo sentia seu sorriso aflorar, a sua vontade inconstante de se libertar, a paixão em seu ser. Às vezes no jardim de casa ficava rodopiando, e sorrindo, e pensando no que seria dos dias depois de amanhã, nos lugares em que iria, nos filmes que assistiria em sua companhia. Pensava em rimas bonitas, queria ser poeta para fazer poesia dos sentimentos. Mas isso ela não sabia.
Ah, e como poderia expressar então aquela nova sensação? Queria que fosse de uma maneira única. Uma maneira que fizesse bem. De um gesto que marcasse para que sempre lembrasse disso em sua vida. Tinha de ser simples e bonito...
Correu. Fora se olhar no espelho. Já era uma moça... tinha cabelos compridos e olhos claros como o azul do céu. Os cabelos escuros e encaracolados se envolviam numa onde de ternura quando nele ela mexia, brincava, quando o bagunçava. Seus pés adoravam o chão. Seu corpo adorava o leve, o suave, os vestidos de cetim.
Achou graça de sua flor. Riu de si mesma por ser tão boba! Ficar se admirando como Narciso? Poderia acabar como ele... não! A vida esperava por ela. Esperava por seus passos, esperava ansiosa por seus caminhos.
Voltou feliz para o quintal. Viu uma joaninha, e se encantava por estes seres tão delicados! Brincou com ela até se cansar. Sentou na sombra de uma jabuticabeira.
No acolher do despetalar das pétalas... bem-me-quer, mal-me-quer. Bem-me-quer, mal-me-quer. Bem-me... adormeceu.
Logo ouviu ao longe uma música. Era linda! Olhou para trás e viu um homem e uma mulher a se aproximar. Vestidos como nas histórias dos livros de criança. Ele estava tocando em seu violão, e ela romântica, de saia comprida e uma cesta cheia de rosas na mão, começara a cantar:
"se enamora... quem vê você chegar com tantas cores, e vê você passar perto das flores... parece que elas querem te roubar!
... às vezes faço que não vejo e nem ligo, fingindo que sou distraída demais..."
Os dois pareciam muito contentes. A menina ficara envergonhada... era isso o que sentia. Eles foram chegando mais perto, e começaram a contempla-la. Acanhada, seus olhos brilharam. Aquela cena que ali se fazia era tão irreal!
- Será que eu poderia comprar uma de suas rosas para dar a essa linda moça?- perguntou o menino que chegara; ninguém havia notado sua presença!
- Claro que sim- respondeu a mulher com a cesta de flores na mão- custam um real!
Ela lhe deu a mais bonita, e com encanto em sua voz foi indo embora, acompanhada pela melodia do violão.
A menina não acreditava que ele estava ali em sua frente, lhe oferecendo com um sorriso tão bonito uma rosa em flor.
- É pra você.
"se enamora... quem vê você chegar com tantas flores..."
Ele a convidou para dançar, e assim que ela apoiou suas mãos em volta de seu pescoço, começaram a se levar com o vento. Seus pés no chão deixavam o momento ainda mais especial. Eles ali se uniam em um só, como quando ela brincara de caretas no espelho de seu quarto.
Ele tocou em sua face e fez carinho em seus cabelos, quando enfim...
Ela acordou. A joaninha não estava mais ali... que sonho lindo! Foi procurar no quintal uma moça com rosas vermelhas e um homem a tocar em seu violão.


Desabafo.

Olha só quanta coisa triste acontecendo. O amigo da minha escola sofre preconceito por ser negro, a menina por ser lésbica, e eu me pergunto o porquê de tanta ignorância.
Olha só quanta coisa triste vem acontecendo... Uma multidão sem discernimento, sem conhecimento, sem comprometimento. Vidas sem amor, cheias de dor, perambulando pela cidade, procurando por um refúgio, por um consolo, às vezes pelo menos por um cobertor.

31 de agosto de 2010

Faz dela poesia.


Pra você eu faria verso todo dia, só pra ver você sorrir!
Por você até soneto eu fazia.
Achando as palavras bonitas juntava todas só pra ver você feliz!
Fazia minueto, canção... Tocava uma fuga de Villa Lobos no violão.
Se você pedir, te dou até meu coração.
Junto o lá maior com a dor da saudade e escrevo só pra dizer do amor que guardo por ti.
Ele vem assim, num descompasso, e traz com ele inspiração.
É coisa tão bonita, é a mais sincera sensação.
Guarda contigo essa cantiga, faz dela poesia...
Tira dela alegria, faz de mim tua melhor emoção.

Saudade, acolhe o meu amor.

Ela vem sorrateira... passa entre os dedos, dá calafrios. Procura os traços das mãos, os pêlos do corpo, os fios de cabelo, o calor da respiração. Os olhos buscam ao redor um consolo. Os dentes roem as unhas das mãos inquietas, e o que se ouve é o tique-taque do relógio.
Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac.
Os sentimentos se confundem, a saudade exala seu cheiro de flor, sua dor. O momento não chega, a paz precisa ser recomposta e o carinho precisa tomar lugar em seus braços. E a partir desse momento a vida é uma só. E a partir desse momento os teus gestos não são, se não meus; e a partir desse instante eu não sou, se não sua.

28 de julho de 2010

Dom.

Acredito que amor de mãe, quando assim existe, é perfeito em si.
Aquele sem mentiras, incondicional, com todos os seus erros.
Mãe; tu és perfeita em teus caminhos.

25 de julho de 2010

Ela bailarina, ele personagem.

Ela bailava pelo palco, deixando seus rastros, expressando sorrisos, a delicadeza de seus gestos e o amor em seu coração. Um dia encontrou um outro personagem, que se dizia ser meio esquecido, meio sem memórias, e apenas com algumas lembranças mal recordadas. Ela o convidou para dançar. Ele consentiu, e começaram a valsar. Ela lhe deu a mão, ele pegou em sua cintura. Os olhares se cruzaram e se entenderam então. A música que começara a tocar era a mais bela: livre de mentiras ou traição. Ela jamais terminou.
Começaram assim a escrever páginas de um livro sem título nem pudor, onde ficavam registradas a saudade mais linda, a amizade mais sincera, os sorrisos mais bonitos, as poesias das manhãs, o carinho na pele, os versos das noites sem estrelas, o cafuné, o violão, o cantar... o coração.
A bailarina era atriz no palco, e precisava de seu personagem para cuidar dela quando ficava sozinha, ou triste, ou doente. O personagem sabia cuidar da bailarina, e a fazia amanhecer brilhando, vivendo a vida mais leve, tirando a sua dor. Era um cuidado sem forma, sem cor, nem explicação. Mas era o único que a fazia bem. O cuidado também ficava no livro que eles criaram em si, do ré mi fá.
O palco parece pequeno sem o teu cuidado. Sem seu personagem, a bailarina atriz não fica de pé.
De todas as formas de atuar, ela encontrara a mais bela. E quando o cenário se fazia frio, ele a levava pra dormir num só colchão, e a guardava com ele. Ela, ele e a imensidão.
E eles sonhavam que brincavam na roda-gigante de esconde-esconde. Ele às vezes contava histórias para que ela dormisse feliz. E quando ele dormia, ela acordava e guardava todas as suas cores. O seu cheiro e o seu ninar. Eles perto da imensidão se faziam tão pequenos... mas eram gigantes no coração. Ele guardou pra ela o amor que nunca soube dar, e ela, aquele que nunca entregou nem repartiu.
A peça então era a mais bonita, toda feita com folia, alegria e inspiração.

23 de julho de 2010

Em si, mistério. A vida. Ah...vida!

De um lado eu via aquela criança com olhos gigantes e curiosos. Fixos em qualquer lugar , qualquer pessoa, qualquer coisa que se apresentasse como mistério. Aquela mão que de tão pequena só era capaz de segurar meus dedos, aquele cabelo liso e ralo, e aquele corpo tão frágil... Aquele cheiro que só essas pequenas criaturas têm.
Do outro, aquele corpo frágil e também aquele cabelo ralo, mas desta vez acompanhados de rugas, marcas de expressões, cicatrizes e muitas histórias. Por onde será que essa mulher já passou, e quais será as sensações que ela sentiu? Será que já teve um grande amor? E sofrimentos....será que já sentiu alguma vez o que é a dor? Filhos, quantos filhos? E netos, será que também tem? E da vida, o que ela aprendeu? Experiência deve sobrar... mas e paciência? Ah, aquele sorriso demonstrava tanta tranquilidade e alegria, a meio de dores no corpo, por já ser velho, e a falta de descanso tão merecido. Será que o coração dela sempre foi assim, bondoso? Imagino uma mulher muito segura e confiante, rígida, e ao mesmo tempo admirável. Isso me faz sorrir.
Logo depois encontro um homem e procuro em suas feições e seu jeito algo que pudesse lembrar meu pai. Aquele cabelo branco, aqueles olhos marejados e escuros, aquele sorriso, aquele tom de voz, aquelas palavras... não, não consegui. Talvez aquelas marcas em seu rosto e o seu jeito brincalhão já tenha ficado um pouco menos nítido para mim. Mas a saudade surgiu, e a recordação de alguns de seus gestos também.
Continuei a olhar curiosa para aquele homem enquanto falava, e percebi que estava agindo como aquela criança com olhos gigantes. Percebi que um dia também vou ter rugas e um corpo frágil novamente, talvez algumas dores e com certeza a história de um grande amor. E quem sabe muitos filhos e muitos netos que aos domingos irão me visitar. Mas o mais importante é que, ao meio de tantas marcas e dor, exista vida e alegria no sorriso. Que haja muitos sorrisos e o coração bondoso, como o da velha que a criança olhava curiosa, aquela velha que apresentava um mistério em seu ser. Assim como é a vida.

18 de julho de 2010

A casinha de cobertor.

O menino, a menina, o violão.
O canto, e a voz mais bonita. A voz do coração.
Ele cantou pra ela, ela cantou pra ele, os dois cantaram juntos...!
Os dois sorriam, os olhos brilhavam, o tempo parara e a dor também.
Encanto era o momento que se fazia e que eles nem acreditavam que existiria.
Um menino, uma menina, um violão.
Um menino, uma menina, um só coração.
O gesto mais bonito, a saudade mais linda, a casinha de cobertor.

13 de julho de 2010

Planos de uma vida em branco e preto.

Abri novamente minha caixinha de lembranças, e ali senti vários sabores, relembrei velhos amores, o gosto do gostar daquele tempo já antigo. O cheiro do teu perfume, a letra e a poesia do teu ser, e daqueles outros que você sempre copiou; no fim entendi que às vezes nem compreendia. Aqueles versos que não passaram de um encanto eterno deixaram suas marcas naquelas próximas folhas do álbum de fotos que não existiu, trajando os planos de uma vida em branco e preto, esperando um novo soneto de amor.
Mas ah!, o que foi vivido no coração nunca será esquecido, aqueles beijos quentes numa noite em que tudo se tornara frio com a chuva (insistente), aquele teu sorriso confortante que se alegrava ao me ver e aquela tua rima ao amanhecer... aquele amor aqui nunca se esquece, foi como uma prece que não alcançou o altar, o meu corpo no teu ao nos entregar a queimar, e nossos filhos a brincar no jardim: "Alecrim, alecrim dourado..."

5 de julho de 2010

-Vejo você amanhã?

Eu andava lentamente sobre aquela rua toda tortuosa, cheia de pedras. Por um instante olhei aquele sapatinho de veludo que amava tanto. Vermelho e branco, xadrez; me sentia uma bonequinha com aquele sapato. E ele me deixava pisar confortavelmente.
Estava em um daqueles dias em que tudo que se quer é sentir a brisa, olhar para todos os cantos, reparar nas pessoas e em suas expressões. Andar sem se preocupar com nada, exatamente nada. Talvez até arriscar algum caminho desconhecido, para me surpreender com novos lugares...

O dia já estava mudando de cor... às vezes ele se mostra colorido, roxo ou alaranjado. Mas já cansado. É bonito de se observar às seis horas. Parece que ele se torna aconchegante para aqueles que querem chegar logo em algum lugar que lhes dê conforto, onde possam tomar um bom chocolate quente antes de dormir.

Ao passar perto do metrô me deparei com aquela mesma mulher que estava exatamente no mesmo lugar há uma semana, vestida de verde e amarelo, com um chapéu estranho, e um carrinho de supermercado a sua frente cheio de bugigangas. Observava as luzes meio opacas a sua frente como nenhuma outra pessoa ao redor. Parecia buscar algo ao longe, algo que perdeu e que nunca mais teria de volta. Parecia buscar esperança, algum refúgio. Um refúgio que talvez ela nunca encontrasse. O que ela devia fazer com aquelas bugigangas em seu carrinho talvez eu também nunca descobrisse.

Continuei andando com minha sapatilha xadrez, pensando em como a vida podia ser engraçada e ao mesmo tempo misteriosa. E em como as pessoas são completamente diferentes uma das outras... de como os caminhos que fazemos em nossas vidas podem se cruzar, ou podem nunca se encontrar.

Finalmente cheguei. Enquanto minha aula de piano não começava, fiquei ensaiando uma cirandinha de Villa Lobos em teclas imaginárias que se solidificavam quando encostavam em meu livro. Meus dedos caminhavam lentamente por ele, se alternando. Mal cheguei a parte rápida de 'Vamos ver a mulatinha', quando ouvi uma voz doce perguntando:
- Posso sentar ao seu lado?
Parei instantaneamente.
-Claro! -respondi sem olhar.
- Então você toca piano? -Ele disse, com aquela mesma voz doce, só que agora com um pouco também de... alegria.
Eu o olhei. Ele tinha um rosto tão querido... um sorriso fascinante.
- É...toco sim. Quer dizer; estou tentando! - Disse me sentindo mais tímida do que o costume.
- Acho lindo esse dom. Cuide muito bem dele!
Aquilo tudo parecia tão fora da realidade... pois ele me conquistava a cada palavra.
-Ah, não é dom. Só estou me esforçando. E você, o que faz por aqui? -Perguntei, curiosa.
-Não sei muito bem...
Ele olhou para um infinito que ali não existia, pareceu tentar recordar, e... sorriu.
- Esse lugar me atraiu. Senti algo diferente nele. Eu adoro esse mundo que a arte cria... faz bem a nossa alma. Queria poder ficar sempre por aqui.

Ele transpareceu muita sinceridade. E era exatamente isso o que eu também sentia ali, independentemente do que via; pessoas dançando,  falas e movimentos exagerados de um personagem teatral... a música ao longe surgindo de uma flauta. Aquele lugar era realmente encantador. E tudo parecia mais acolhedor ao lado daquele rapaz e seu largo sorriso.

De repente a porta ao lado se abriu. Minha prefessora despediu-se de seu aluno com um beijo, olhou para mim e me convidou para entrar, carinhosamente. Olhou também curiosa para o menino ao meu lado.
-Vamos entrar, Clarissa?
-Sim, professora. Já vou.
Ela então sumiu, se encaminhando novamente para sala. Olhei para ele sem saber o que falar, ao mesmo tempo que tudo o que queria dizer era pra que ele não se fosse, assim, sem deixar rastros... Ele pareceu entender.
- Te espero aqui, quero ouvir você tocar. Se você deixar, é claro.

Eu não disse nada, somente sorri e entrei. Fiquei feliz como nunca com aquele seu jeito galanteador. Ao entrar, arrumei o banquinho até que ele ficasse bom o bastante para mim e sentei finalmente a frente do piano. Minha professora perguntou quem era aquele menino ao meu lado.
-Também não sei...
Ela se mostrou animada, com aquela expressão típica de que esperava uma grande novidade da próxima vez que me visse. E completou:
- Não parecia...!
E isso me deixou contente também.

Dei o melhor de mim durante a aula, e tentei tocar a 'Mulatinha' como nunca tinha tocado antes.
Ensaiamos também os chatos exercícios de Czern, que eu tanto odiava. Até eles me pareceram um pouco agradáveis, porque sabia que a aula estava perto do final.
Acabara enfim. Despedi-me da professora também com um beijo, como seu outro aluno fizera, e saí ansiosa. Um abraço veio me aquecer na mesma hora.
-Foi lindo! Como você me fez bem ao tocar durante esse tempo em que estava aqui nesse banco!

Saímos juntos daquele lugar mágico. Estava chovendo forte. Ia pegar meu guarda-chuva, mas ele me puxou antes que conseguisse. Fomos então até o metrô pulando em poças d'água, de mãos dadas, e nos divertindo como nunca havia me divertido antes. Meu cabelo estava encharcado, e minha mãe ia ficar zangada quando visse. Aquilo tudo se transformava em um sentimento maravilhoso.

Ao chegar ali,  me deu um beijo na buchecha, e perguntou:
- Vejo você amanhã?
Aquele sorriso era tudo o que eu precisava ver amanhã, e em todos os outros dias de minha vida.

27 de junho de 2010

Brincando de poeta.

Vamos escrever sobre nós?
Tá, pode ser. Começa você!
Não, começa você.
Não, você, lero lero.
Mas se eu ler o que você escrever, eu me inspiro.
Hum, eu acho que já começou, olha só.
Minha vez? ... Ah, não sei o que escrever!
Tudo bem, vou tentar continuar pra ver se te dou inspiração...
É bonita essa brincadeira de inspiração. A gente tem às vezes, ou sempre, ou quase nunca...
Dependendo do momento, ela vem. Furtiva, sorrateira, quando menos se espera.
Ah, e acho que agora ela chegou! A gente até descobriu que pode brincar com ela juntos. Intrigante, não é mesmo?
E quando ela chega, coisas acontecem! Coisas que surpreendem. Um dia comum vira um dia cheio de cor, o teclado se torna uma caneta de ouro e a tela monitor se transforma no mais raro papiro.
E o mais delicioso é que dessa inspiração surgem sentimentos, que se transformam em palavras, e frases e... quando se vê, seu coração está ali, bem na sua frente! 
E dois corações se tornam um só, unidos pela força da inspiração, da emoção. E se cria um lugar onde os sentimentos brincam de roda, se divertem e se manifestam. A simples questão de ouvir a música certa, falar com a pessoas certa, dar asas à emoção certa.
A poesia brinca de existir, faz ciranda com as palavras, se torna uma grande festa de menina e menino que gostam de sentir a vida, e esquecer dos seus.
Sonetos de sonhos, quadras de alegria, redondilhas de amizade e amor, o que era velho passou. Já não há problemas ou aflições. Agora há inspiração. Agora os corações estão repletos.
Repletos de alegria, de gostinho de doce caseiro, feito pela vóvó. Repleto de lembranças boas da infância, e de brincadeiras de criança feliz.
Repletos de revelações, de curiosidades. Surgem palavras que tornam a sinestasia uma mágica, em que é possível sentir a mais profunda alegria, e também o mais profundo temor. Atos e cenas, bastidores e falas, peça e público se transformam, se fundem em algo novo, diferente, harmonioso!
Tudo isso se amplia num sorriso e num doce gosto de relembrar nesses instantes o quanto é bom viver, e poder criar essa mágica sinestesia, onde tudo é possível; foi uma delicia brincar de escrever com você!
Ah, ja acabou?
Continua, oras!

E quando a inspiração se vai...
Retorna a realidade, retornam as luzes opacas, os tons em cinza. Mas fica aquele gostinho doce, como tomar água logo depois de tomar sorvete. E é aí que percebemos que realmente aconteceu. E que foi lindo!
E a gente percebe que ser poeta não é tão difícil assim. É só fugir um pouquinho do mundo, para ouvir o que quer dizer o proprio coração.
FIM!

"Qual vai ser o título? Vish, ia te perguntar isso agora. Posso escolher o título? Vai ser surpresa. Claro! Eba!"

(Texto feito com o Helder, menino de longe, mas só em Km. Foi lindo. Obrigada por esse momento!)

Sentindo.

Quem sabe um dia ter a sensação de correr e sentir voar,
Quem sabe um dia sorrir e fazer chorar?
Quem sabe um dia rir pra fazer outra pessoa feliz,
Quem sabe dançar em cima dum altar?

Passar um dia com um grande amor no alto da montanha, fazer piquenique à luz de velas...? O tempo é precioso, a vida é maravilhosa.
Um abraço, um afago, um carinho; coisas simples podem fazer sorrir, e fazer sorrir é algo tão gostoso quando isso mexe com o nosso coração...

21 de junho de 2010

O lugar onde vivo

Vila Ede é um bairro que fica na zona norte da cidade de São Paulo. Ele, como quase todos os outros, é composto por várias casas, apartamentos, e padarias, e supermercados, e lojinhas de pipa e lojinhas de 'um real'. Composto por várias pessoas dos mais variados tipos:estudantes, crianças, trabalhadores, homens, mulheres, avôs e avós. Os avôs e avós têm o costume de ir à Paróquia aqui perto aos domingos, e os meninos, de frequentar a quadra de futebol ali da esquina.
Essa paróquia há muito tempo era uma Capela, e a quadra nem existia. Nesse tempo, a Vila Ede era uma fazenda, que só tinha a tal Capela e algumas casas. Talvez a vó dos avós de hoje, que costumam ir às missas, morasse numa dessas casas.
Uma delas pertencia à família Tressino. Os membros da família Tressino eram donos de uma fornalha de fazer tijolos, e tiveram um papel muito importante na história do bairro. Eles foram os primeiros a asfaltar a Avenida Ede com paralelepípedos! Só a partir daí é que a Prefeitura levou a placa da Avenida, vejam só. E saibam também que o chão dessa avenida foi o primeiro campo de um menino sonhador. Sonhador porque seu sonho era ser jogador de futebol.
Foi na rua mesmo, no bairro Vila Ede, (esse que fica na zona norte de São Paulo) que o menino Dener jogou suas primeiras partidas de futebol. Foi aqui onde ele cresceu e acreditou no seu sonho.
Talvez se a família Tressino não tivesse asfaltado o bairro com paralelepípedos e o menino Dener não tivesse acreditado em seu sonho jogando futebol nesse asfalto, nada disso teria acontecido. E se as famílias que moravam nas casas da fazenda não tivessem conhecido outras famílias para formar outras novas famílias, hoje não existisse tantas pessoas, e crianças, e homens e mulheres e avôs e avós que vão às missas aos domingos aqui na Paróquia; e eu também não poderia comprar pão na padaria, e morar nessa casa, e comprar pipas na loja que vende pipa ou um espremedor de limão na lojinha de um real.
Só fico triste porque hoje se o Luquinha, meu vizinho, quiser ser jogador de futebol, não vai poder deixar a marca do seu sonho no asfalto aqui da rua, porque moramos num bairro da zona norte em São Paulo, uma cidade muito violenta que não deixa mais criança brincar na rua. E é por isso que o Luquinha aqui do lado tem que sonhar mesmo, e lutar pra conquistar seu sonho. Pois assim de alguma forma, lá no futuro, ele vai poder fazer algo pra mudar a realidade de um lugar perigoso para um lugar cheio de cor e esperança, onde as crianças vão poder descobrir sim seus sonhos e talentos na frente de casa, brincando com os amiguinhos.

17 de junho de 2010

Deixa ser.

Vejo várias pessoas andando ao meu redor
algumas tão perto, outras tão distantes
Cada qual com seu ritmo,
às vezes acelerado, às vezes lento e calmo
às vezes com pressa e com um quê de desespero...
Uns poucos esboçam um sorriso,
que contrasta com o escuro da noite
e chama a atenção entre todas as outras pessoas,
entre o verde das árvores e o preto das sombras,
entre o concreto das construções antigas
e as pedras no chão.
Vejo várias pessoas andando ao meu redor,
algumas tão perto, outras tão distantes
Cada qual com seu ritmo, e isso me faz lembrar
do tempo, do tempo e da vida.
A sensação que sinto nesse momento é de que
no meio de tantas pessoas, tantos andares,
tantos ritmos e concreto,
no meio da luz escura da noite,
às vezes ruídos de algumas conversas,
mendigos dormindo na rua,
e daquele talvez único sorriso que contrasta com
tudo que ainda se pode ver, eu me sinto viva.
A sensação que sinto é de que estou viva.
Sinto prazer e imagino por um instante
que posso alcançar tudo que quiser.
E nesse mesmo instante
tenho vontade de deixar estar. Deixar estar até o amanhecer...

5 de junho de 2010

Lento, duvidoso, fascinante.

Tempo, tempo
O tempo vai parar quando estiver te abraçando
Vai passar num instante enquanto estiver esperando,
Vai se transformar em segundos dobrados enquanto estiver realizando algo que me faça bem
Talvez enquanto estiver sentindo o cheiro de um nenem

Vai ser da forma que eu quiser quando eu desejar que seja assim
O tempo todo só pra mim
Só pro meu prazer, só pra esclarecer
que tudo que tenho é para satisfazer
Pra fazer sorrir, pra fazer chorar de emoção
O quanto tiver que durar será decidido pelo meu coração

Vai entrar na brincadeira quando estiver ritmado,
Vai entrar na roda, não vai ficar parado
Pode falar o quanto quiser, reclamar do que der e vier
Eu faço o meu tempo, essas são minhas horas

Cala a boca tempo, não vê que eu não tenho pressa
Que eu quero mais é que tudo me leve, me traga de volta
Quero dar um passeio, quero viajar, quero amar
Quero sentir, me permitir
Quero, às vezes, jogar tudo pro ar,
e simplesmente voar, sorrir

Mas tempo, seja meu amigo
que é bom que com seu passar
A gente descobre as faces dos que se dizem bons elementos,
E guarda durante a sua existência aqueles que já deixaram sua marca no seu arrastar
lento, duvidoso, fascinante.
Aqueles que deixaram vidas tatuadas em minha pele
Sejam esses quais foram
Guarda pra todo o sempre, guarda pra todo o resto do tempo que nos resta...
Tempo, tempo.

8 de maio de 2010

Sonho

Estou agora olhando para um vasto céu azul, sentindo a grama em minha pele e a brisa em meu rosto... sentindo um enorme prazer ao pensar no grande dia. Ao pensar em amanhã. Até chegar aqui, são várias histórias; uma vida para contar.
O importante é que tudo valeu a pena.
Lembro nitidamente das minhas sempre mesmas palavras quando as pessoas perguntavam o que eu queria ser quando crescesse. -Atriz!- respondia com os olhinhos brilhando.
"Ah, que lindinha!". Nessa idade, se eu dissesse que queria ser uma borboletinha, as pessoas teriam a mesma reação. Naquela época era fácil ter um sonho tão distante... todos apoiavam, pois com certeza essa escolha mudaria quando estivesse mais grandinha... pois isso era quase impossível, uma loucura, não é mesmo?
Não importava onde, qualquer oportunidade de atuar num teatrinho eu agarrava, e era aquilo o que me fazia feliz, que me dava frio na barriga, que me fazia sonhar. E como sonhar é bom!
Ouvir a palavra "merda", dizendo-me na realidade 'boa sorte', antes de chegar ao palco para me apresentar era o que me divertia.
Mas tudo ainda era brincadeira! Essa é a época em que temos que deixar nossos filhinhos se divertirem com cursos de teatro, dança... pois depois que entrarem na faculdade, não terão tempo para essas coisas...!
Esse tipo de pensamento é o que começava a me chatear quando me tornei uma adolescente. Quando as pessoas perguntavam que curso queria fazer na faculdade- pergunta modificada para "o que você quer ser quando crescer"-eu respondia: -Atriz!, com o mesmo brilho nos olhos.
Elas indagavam um "é mesmo?", cheio de dúvidas e descrenças. Quase ninguém sorria e me apoiava; quando não diziam: "-mas é muito difícil! E você sabe que ator trabalha demais e não ganha dinheiro, né?!".
Sim, eu sei. Sei que de tão difícil é quase impossível. Sei que não vou ganhar muito dinheiro. Sei que, às vezes, posso demorar muitos e muitos anos para conquistar reconhecimento. Mas esse é meu sonho, e não vou desistir facilmente dele.
Quando pensava dessa forma, meu coração se enchia de coragem e esperança. Ao mesmo tempo que estudava muito como qualquer adolescente normal, fazia teatro amador e decorava falas como qualquer adolescente considerado sonhador demais para querer seguir essa carreira.
Os anos foram se passando, muitas peças de teatro eu fazia e estas me faziam feliz, e me aprimorar a cada dia era o meu objetivo. O sonho acalentado desde criancinha nunca se perdera, como as pessoas torciam para que acontecesse.
E amanhã é o grande dia. Estreia uma das mais famosas peças de um autor reconhecido, que será apresentada em todo o Brasil, e que terá como atriz principal uma menina que sempre sonhou com esse dia. A menina que nunca deixou de acreditar em seu sonho, não importando o que as pessoas lhe dissessem.

...

Está calmo aqui. A chuva gelada insiste em cair sobre meu rosto e minhas asas. Minhas asas pesam, assim como minha alma.
A influência do mundo dos seres humanos faz o nosso mundo ficar mais gélido a cada dia que passa. Ele já não é mais o mesmo há muito tempo. A hipocrisia, a maldade, a ganância, a falsidade, estou cansado de tudo isso. Meus amigos anjos também. Isso faz com que passemos mal, o que agora acontece sempre. Faz com que me sinta sozinho, angustiado, frio. Sinto frio e tristeza.
-Karrel?
Viro-me para trás. É o anjo Rafael.
- Por que não se protege dessa chuva?
-Eu não sei- respondi com franqueza. -Preferi ficar aqui.
- Bem, eu vim aqui para... avisar que esperamos por você onde sempre nos reunimos, ao leste daquela montanha. Precisamos muito conversar com você.
-Sabe o que é?- perguntei, sentindo-me honrado e confuso.
- Sua missão, Karrel.
Missão. Somente os anjos mais inteligentes, mais fortes, mais treinados recebiam uma missão. Todos os outros cumpriam com a rotina de guiar os humanos. Hipócritas humanos, em sua maioria. Eu mesmo, às vezes, me surpreendo com o esforço gigante que faço para cumprir tal função. E isto está me deixando pouco a pouco mais fraco.
Fico conturbado com a notícia.
-Rafael, você tem certeza que está falando com o anjo certo?
-Sim, Karrel. Amanhã, ao amanhecer, está bem?
Digno de um membro do Conselho, olhou-me com firmeza e esperança ao dizer as últimas palavras. Admiravelmente, fitou o céu e voou, deixando assim com que a água da chuva que o molhou enquanto falava comigo se libertasse de suas asas.

[talvez continue... ]

1 de maio de 2010

História ainda sem nome de uma menina chamada Melissa! :)

O vento bate na árvore, as flores caem e fazem festa com o vestido da menina. A mãe chama:
-Melissa! Vamos logo, é hora de ir para a escola!

Hora, hora. A menina nem sabe ao certo o que é "hora" e tem que ir pra escola aprender números, soma, escrever o bê-a-bá. Obrigação chata!
Por que ela não pode ficar serelepiando embaixo da árvore, que quando o vento bate faz cair as flores que fazem festa com o vestido da menina?
- Vamos logo mocinha, mais cinco minutos e você não consegue chegar a tempo!

Tempo. Como o tempo é chato com Melissa! Com cara de emburrada, ela pega a sua mochilinha, e o lanchinho preparado pela mãe com carinho, todos os dias...
O que será que mamãe preparou hoje para mim? Espero que seja uma coisa bem gostosa!- e guarda também o seu lacinho de amarrar o cabelo na sua mochila vermelha.
-Tchau, mamãe!
Um beijo na buchecha, e a preocupação rotineira a faz falar:
-Cuidado hem, filhinha? Vá pelo caminho da padaria, não fale com estranhos, não...
-Não atravesse a rua sem olhar para os dois lados... eu já sei de tudo isso mamãe! Tchau!

Essa menina... mal entrou pra escolinha e acha que é gente grande!- a mãe se diverte com o pensamento, e ri.
Menina esperta essa, com milhões de ideias intrigantes em sua cabecinha a cada passo que dá.

Um gatinho branco passa correndo assustado lá bem longe.
Por que será que o gatinho está assustado? Ah... ele tem sete vidas, não é mesmo? Ouvi essa conversa de sete vidas com os meninos lá da escola, na hora do recreio. Será que é verdade?

Ela passa agora pela padaria.
-Oi Melissa! Tudo bem minha queridinha? Corra, o sinal da sua escolinha vai soar agorinha mesmo!
- Oi dona Maria! Tudo bem, sim! Hoje eu me atrasei porque estava brincando lá no balanço embaixo da árvore... nem vi o tempo passar!

Dona Maria é encantada com o encanto de Melissa.
-Então vá, o tempo não perdoa nosso atraso! Na volta passe aqui porque tenho uma surpresa pra você!
- Tá bom, dona Maria! A senhora me deixou curiosa!
-Vá Melissa, vá!- e fica olhando a menininha se apressar.

Dessa vez ela correu, e ficou cansada. Só parou quando chegou na porta, bateu e pediu licença para entrar em sua sala de aula. Ainda bem que a professora é uma moça muito boazinha!
- De novo atrasada, dona Melissa? O que aconteceu dessa vez?
-É que no meio do caminho eu tive que amarrar meu sapatinho, que tinha desamarrado, e a senhora sabe... não sou muito boa em amarrar meu sapatinho, e...
-Tudo bem Melissa, tudo bem- a professora, no fundo, achava graça das desculpinhas esfarrapadas da aluninha- Agora sente-se, porque vou começar nossa aula!

Foi o que ela fez, satisfeira por achar que a professora tinha acreditado.


[continua...]

7 de abril de 2010

Folia.

A menina vem bailando
saltitando feliz
Pisa numa folha
-ai!
E a folha faz um barulho assim.

A menina gira, rodopia,
sorri.
Brilham seus olhos,
brilham como estrelinhas.

Olha uma joaninha
vermelhinha com bolinhas brancas.
-Que encantadora!
E volta a rodopiar.

Ela esquece de tudo,
esquece da vida, esquece dos seus
Ela agora só sente a brisa,
o som das folhas se quebrando
e o seu coração se libertando.... que lindo é amar!

17 de fevereiro de 2010

Ah, que lindo é o coração de uma criança!

Tudo a minha volta é silêncio agora. O mínimo som me faz ter arrepios. É engraçado! Esses sons só fazem isso a noite, quando tudo a minha volta é silêncio. A tarde eles não tem a miníma inportância.
E é agora a noite- mais precisamente madrugada- onde o silêncio permanece, que tenho vontade de expressar o que sinto, aliviar mais uma vez o meu ser, pensante e vivo, mas sempre pensante. Em extase, querendo sempre revelar os mais profundos sentimentos.
Sentimentos estes que se perdem em linhas. Na verdade traços, traços que formam palavras que saem da ponta da caneta com que escrevo neste caderno. Da onde vem esse 'gostar de escrever'? Não sei. Vem do coração. Vem do sufoco que dá o nó na garganta, que faz com que a vontade de dissipá-lo me faça escrever, pra me libertar. Bonito? Talvez. Eu diria...delicioso.
Lendo essas poesias da literatura destes vastos escritores da nossa língua portuguesa me veio um desejo até mesmo incompreensível por mim mesma, mas veio, surgiu e está aqui crescendo. As crianças são tão puras, são tão ingênuas, são tão... especiais.
Elas veem o mundo com olhos diferentes, com olhos de ternura, de incompreensão.
Elas querem descobrir logo os segredos da vida e das pessoas. Ah, pobrezinhas! Não sabem elas que estes segredos, na maioria das vezes, não são bons.
E como seria bom que elas continuassem vivendo neste mundo de encanto e coração puro.
Talvez vocês não me compreendam. Acho que também não compreenderia numa leitura rápida. Não se prenda a mim, e ao meu texto vago. Pense, pelo menos tente pensar em como uma criança, uma menina sente-se descobrindo os mistérios da vida, pouco a pouco, intensamente.
Talvez agora você me compreenda um pouco melhor.
Agora o que me perturba é o que eu vou questionar à vocês: por que essa criança não pode escrever um livro, contando exatamente toda essa sensação? Por que escrever um livro só cabe aos mais estudados, porque tem mais palavras em seu vocabulário?
Eu acho isso uma grande tristeza, pois como seria lindo um livro escrito por uma criança, contando o sentimento de estar descobrindo a vida! Esse é o desejo que guardo comigo.
Feliz fico eu quando leio uma história feita por um adulto, com o sentimento de uma criança. De verdade, são histórias que me aquecem o coração, que me fazem sorrir, por causa da ingenuidade e da pureza que um dia (esse autor me faz lembrar!) já senti...
Ah, que lindo é o coração de uma criança!

14 de fevereiro de 2010

É nesse ritmo que eu quero me embalar.

Vontade de... amar. Amar, amar, amar. Deixar-se sentir voar, e voar, e voar.
Os lábios se acariciando, as mãos acariciando os cabelos, os cabelos ao vento no ritmo do amor.
Ah, o ritmo do amor! Ritmo acelerado, que traz calma, que traz batimentos cardíacos rápidos, acelerados, buscando por mais. Mais sede de querer, de ter, de ficar.
A sensação louca de amar é... indescritível.

29 de janeiro de 2010

A felicidade de quem ama.

Primeiro foi o encanto do teu sorriso. Depois eu lembro da sensação de tê-lo pra mim, por mim, pela primeira vez.
E então a felicidade era tanta que dava sufoco, um nó na garganta que não se dissipava nunca, a vontade de gritar, gritar o mais alto possível tomava conta de todo o meu ser. A minha alma não se contentava com ela mesma de tamanha alegria e intensidade que sentia!
O tempo foi passando e a calma resolveu tomar seu lugar. A calma da alma que fazia e faz sorrir sem motivo. E os braços que me envolvem me dão paz. Trazem paz e calma. E a felicidade de quem ama.

20 de janeiro de 2010

Coisa tão rara de si incontrá...

Ára, nossa sínhora dos arrepiú! Quando eu vejo esse mundão grandão de gente assim me dá sempre uns calafrio danado! Im pensa que eu achei que nunca um dia na minha vida intêrinha ia podê vê uma cidade grande assim. Quando eu vejo esse povo todo com essa pressa de láscar eu fico até assustada.
Que será que esses bicho tem tanto que fazê, pra corrê tanto? Quando eu pergunto, eles falá: "-É o trabaio, é o trabaio!". E saem correndo mais rápido que cavalo quando nóis bota pra corrê.
E intão eu penso: que hora que esses homi para pá cumê? Pra conversá com os seus respectivo cumpádi? Pra dá atenção pras criança? Pra muié? Que muié é carente por demais. Eu sei porque eu sô!
E isso fica assim, batutando na minha cabeça, sabe? Eu vejo eles tudo correndo de lá pra cá com cara de desespero. De preocupação, de ansiedade... ixe maria, quando eu vejo eles parado no carro então, no meio de mais uns monte, um chingando os otro, sabe?! Aí que eu fico encafifada mesmo!
Eu vô aqui proseá com ocêis. Lá no interior onde eu morava eu ouvia os passarinho cantá logo depois que eu abria os óio. Quando eu era criança, depois de tomá café, eu ia lá pro quintal, cantá com eles. Era bom por demais!
Eu tinha também um cachorro chamado Joe. Eu que dei esse nome pra ele, depois que eu vi um daqueles fime americano, que tinha um cara bonitão com esse nome.
O meu cachorro era bonitão também. Por isso eu chamei ele de Joe!
A minha infância foi assim... cantando com os passarinho e brincando com o Joe.
Aí de acordo que eu fui crescendo, as minha vontade era ôtra. Eu tinha agora que ter a tár da 'responsabilidade'. Minha mãe não cansava de falá dela, eu tava até cansada de ouvi.
Pra cumpri cum a tal palavra, minha mãe colocô eu pra trabalhá. A amiga dela era dona de uma floricultura ali perto de casa, e eu passei a atendê os cliente tudo.
A moça, amiga da minha mãe, me ensinou direitinho a fazê buquê, a cuidá das rosa, das orquídea, dos copo-de-leite... mas a flôr que eu mais gostava era das rosa. As vermelha. Elas mi traz um encantamento que eu num sei expricá!
Sabe aquele frio na barriga que ocê sente quando passa por alguma coisa nova? Quando minha mãe disse que eu ia trabalhá eu senti isso daí... mas eu fui e num me arrependi! Eu gostava tanto de cuida das flôr...!
Até que teve um dia que chegô um moço bunito lá na floricultura. Era tão bonito que eu fiquei com vergonha de atendê. O moço pediu ajuda, porque eu não tive coragem de falá nada.
Ele chegou a dá risada com o jeito tímido que eu tava. Eu fiquei tão encabulada... Na mesma hora eu senti umas borboleta no estômago. Nem mais frio na barriga era. Eu nunca tinha sentido aquilo não. O moço escolheu logo umas rosa vermelha, sorriu e me pagou. E intão foi imbora. Eu não queria que ele tivesse ido não...
Passô os dia e eu esperava que ele voltasse. Mas eu imaginei que ele num iá voltá mais... Parecia que era homi da cidade. Esse homi engravatado, bem vestido. Só que esse era diferente. Ele num tinha cara de preoucupação, a cara que eu vejo agora em todos os hómi aqui na cidade. Ele sorriu pra mim. Sorriu um sorriso que nunca tinha visto, de tão bunito!
Os dia se passaram e eu comecei a achá a vida na floricultura coisa muita pequena pra eu. Eu queria mais. Eu queria podê conhece as cidade grande, que existe além do meu interior. Eu sempre soube que falando assim, desse jeito todo caipira, iam ri muito da minha cara, iam tirá sarro das minha roupa simples... mas eu tomei coragem e vim. Vim porque esse era meu sonho.
E ainda pensei, toda facêra: "E quem sabe eu ainda num consigo vê aquele homi do sorriso e das rosa vermelha...". Eu ainda carregava ele comigo, no meu coração. Ele pode ter ficado assim, falando comigo por um segundinho só, mas ele marcou tanto que eu lembro direitinho até do cheiro dele!
Mas então... quando eu cheguei aqui me assustei com a grandeza das coisa! Tanta coisa bonita, mas tanta coisa feia também...
O que eu mais sinto falta é do verde e dos cantár dos passarinho, que acordava comigo todo dia... e do frio na barriga que eu sentia lá, por causa das coisa nova. É muito diferente do que eu sinto cá.
Aqui eu sinto frio na barriga quando eu vejo os mendigo durmi na rua, no frio, só com um papelão pra se protegê. Sinto frio na barriga de vê as minina ainda moça oferecendo sua doce honra pra podê se sustentá. Eu sinto frio na barriga em vê o comportamento dessa gente que não sabe se respeitá, não sabe se ajudá, não sabe dá valor ao que tem.
Mas se eu for pará pra pensá, isso tudo não devia me assustá desse jeito não, me dá esse frio na barriga ruim. Esse povo todo só pensa em dinheiro. E tão aí, sempre andando rápido, com a cara fechada, preocupada, rabugenta. Pensando em trabaiá, trabaiá, pra ganhá, comprá, comprá, comprá! Eles tinha que pensá também nas outra coisa da vida... sabê vivê de verdade. Sabê ter os dois.
Eu só sinto aquelas borboleta no estômago, no sentido bão, quando eu avisto alguém sorrindo de verdade (como o homi da floricultura, engravatado, o homi do sorriso bonito, que eu carrego até hoje comigo no meu coração). Coisa tão rara de si encontrá...

8 de janeiro de 2010

A flor da pele.

Eu quero mais poesia no meu dia-a-dia. Eu quero mais sorrisos, mais alegria, mais sede de viver.
Eu não quero mais os dias monótonos, sem graça, sem energia, jogados ao vento.
Inúteis. dias inúteis equivalem a dias sem vida, à gente sem coração.
Quero poder me jogar do alto e me sentir voar, eu quero sua boca todos os dias para poder me beijar, me doar, a cada dia mais me apaixonar, e então te amar, e amar, e amar...
E poder brincar de cantar na chuva, no sol, debaixo do lençol, sentada na cadeira, comendo sobremesa. Por que não?
E quando eu quiser chorar... eu vou chorar mesmo. Porque chorar às vezes é preciso. Andar descalço também sempre é uma boa opção, mas não gosto muito dessa ideia de 'pé no chão'. Eu gosto de voar... voar por onde meus pensamentos quiserem me levar... seguir as ondas inexistentes do meu ser...
Eu quero poder alcançar aquilo que me satisfaz, que me faz suar, que me tire o fôlego de tamanho bem-estar.
Eu quero poder alcançar aquilo que simplesmente me faça sorrir. Quero poder tocar no teu cabelo e ser capaz de te fazer sorrir também.
O dom de ouvir e viajar pelas notas musicais, fechar os olhos e... sentir. Eu quero isso todo dia.
Pular no meio de um jardim cheio de flores a encantar o meu... leve... peripiciar.
Quero poder olhar no fundo dos seus olhos e sentir o que você está sentindo, e fazer com que você sinta o que sinto eu.
Saber teus pensamentos, não. Querer saber de tudo é querer saber demais.
Ah, sentir...
Quero ter o direito de me permitir. De saber a hora de parar, e de não saber o quanto vai durar.
De viver cada segundo com a noção de que ele é a única coisa que tenho nesse momento. Viver. Viver cada segundo.
Às vezes penso o quanto seria bom um mundo onde só existisse eu e você.
Eu queria poder nunca mentir...
Ter a capacidade de te fazer dormir, e o teu sono ninar com um lindo e simples cantar.
Eu queria poder enfeitar com estrelas, fazer brisa com um temporal, soprar palavras doces ao ouvido como o chocolate, e pular carnaval.
Fazer festa com a chegada, e não pensar muito na partida. Ficar com teu cheiro na minha roupa por todo o dia.
Acordar cedo pra admirar o nascer do sol, e agradecer a vida, a família, a comida, a saúde, a ferida do coração. Eu quero mais poesia no meu dia-a-dia. Eu quero mais paixão. Eu quero conhecer toda essa nação, e finalmente olhar pra trás e ver que nada foi em vão.

5 de janeiro de 2010

As estações do ano

Compartilhando um poema do meu pai! :)

"As estações do ano

Eu tinha para mim, que eras pura e sincera,
e por isso talvez acreditei em ti
Nesse tempo, em meu ser, fazia a primavera
e as flores do meu sonho em minha alma colhi.
Depois foi de repente, ao pensar na estação...
Tornou-se o meu amor maior e mais ardente
Havia no meu peito o calor do verão
E julguei que eras meu, meu inteiramente...

E o tempo foi passando,
e tudo pouco a pouco mudou
E me senti num completo abandono.
Caíram para sempre as ilusões e eu, louco,
as vi secar no chão como folhas de outono...
E um dia veio o inverno, insípido e tristonho
Fazia frio e em minha alma nevou
e a neve foi caindo, e sepultou meu sonho
e o proprio coração no peito enregelou

As estações do tempo, as estações do amor
Parecem muito iguais e diferem no entanto
naquelas, há o voltar da alegria e da cor
ao de novo surgir, da primavera,
o encanto
Mas nas outras, depois do inverno,
nada existe
Tudo é branco, tristonho, frio e desolado
Recorda-se a chorar e vê-se o como é triste
lembrar da primavera antiga do passado!"